sábado, 31 de dezembro de 2011

TOP FILMES (GERAL) 2011

Vencida a insanidade de acumular todos os tops do ano neste último dia de 2011 (ufa!), é sempre difícil encerrar uma seleção dos filmes que melhor me definiram no correr do período. Entre os 303 títulos assistidos, desta vez limitei meu recorte a uma dúzia de filmes, para espelhar o bom ano que vivi dentro do cinema (responsável por outra lista com 12 lembranças). Com a formação do Top deixo meu habitual desejo de um próximo ano abençoado e muito cinematográfico pra todos. Até 2012!

Ps: uma visualização rápida de todas as minhas sessões em 2011 pode ser VISTA AQUI.


1º Lugar: Adeus ao Sul (Hou Hsiao-Hsien, Taiwan, 1996)

Porque tudo continua a ser uma questão de movimento.
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2º Lugar: Dog Star Man (Stan Brakhage, EUA, 1962-64)

É da criação a dor, da destruição o belo.
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3º Lugar: Amblin’ (Steven Spielberg, EUA, 1968)

Todo deserto começa num grão de areia.
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4º Lugar: Nosferatu – O Vampiro da Noite (Werner Herzog, Alemanha/França, 1979)

Que habite a morte na superfície do mundo.
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5º Lugar: Aniversário Macabro (Wes Craven, EUA, 1972)

A violência do sobreviver.
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6º Lugar: Les Baisers de Secours (Phillippe Garrel, França, 1989)

Quando a vida se perde no encontrar da arte.
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7º Lugar: Diário de Um Pároco de Aldeia (Robert Bresson, França, 1950)

Às vezes o maior dos pecados é crer.
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8º Lugar: Os Andarilhos do Deserto (Nacer Khemir, Tunísia/França, 1986)

Vem da areia o verbo, vem dela a vida.
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9º Lugar: Mônica e O Desejo (Ingmar Bergman, Suécia, 1953)


A proibição/insistência do olhar.
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10º Lugar: Elegia à Alexandre (Chris Marker, França/Finlândia, 1993)

Onde jaz o teu medo?
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11º Lugar: Viagem à Itália (Roberto Rossellini, Itália/França, 1954)

No amor, a bravura dos fortes.
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12º Lugar: A Outra (Woody Allen, EUA, 1988)

Não é no outro que está o inferno.
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Menção Honrosa: Mildred Pierce (Todd Haynes, 2011)


Porque uma imagem não precisa de lugar certo.

TOP LIVROS 2011


1º Lugar: O Lustre (Clarice Lispector)
Se em 2010 me abstive de indicar algum livro desta escritora, com o pretexto de organizar posteriormente um Top só dela (que ainda estou devendo), não tenho como deixar passar 2011 sem elegê-la como a responsável pela mais importante experiência literária que vivi no correr do ano. De um impacto assustadoramente semelhante ao que um dia Água Viva foi em mim, O Lustre é destes raros livros que conseguem colocar a essência do que é viver em palavras. Seus personagens flutuam entre as páginas e pouco fazem além de existir. Nisso fazem tudo. Livro luminoso que irradia fôlego de vida, ponto de criação; renovo de amor por esta mulher, pelo ato de ler, e com isso aceitar que viver é preciso.

2º Lugar: Cinefilia (Antoine de Baecque)
Pelo oportuno aprofundamento crítico junto ao cinema que o ano me trouxe, nada poderia ser mais coerente do que uma maior conscientização do ser cinéfilo. Livro histórico, história de amor, esta compilação do crítico francês foi um passo muito importante para reposicionar o lugar do cinema em mim, não só dos filmes, mas de sua permanência, seja pela escrita, pelo compartilhamento, por tudo que fica para além dos créditos finais. E que se destaque o valor de ter vivido esta experiência de leitura junto com o amigo Ranieri Brandão, outro que marcou meu 2011 de uma forma mais que especial. Ao contrário do que dizem, ler não é nada solitário.

3º Lugar: Clarice, (Benjamin Moser)
Pois é, não dá mesmo pra dissociar dela o meu ano. A biografia escrita por Moser, impecável trabalho editorial e documental, ganha ainda mais valor para mim pela premissa espiritual que a motiva, de investigar a vida de Clarice e seu ofício junto à Literatura enquanto uma incansável busca pela letra oculta de Deus. Se hoje minha aproximação acadêmica da escritora é orientada justamente sob os traços do divino que nela estão marcados, a leitura desta apaixonada obra foi uma das confirmações definitivas de que estou no caminho certo, ou que pelo menos, encontrei um caminho. Que Deus me ajude a manter este amor.

4º Lugar: O Livro Por Vir (Maurice Blanchot)
Apesar de ainda não concluído, este impressionante trabalho de Blanchot é peça obrigatória na minha trajetória literária de 2011. Ano em que renovei sob muitos aspectos meu desejo por uma vida com a Literatura (espero os frutos em 2012!), compreender que a vocação literária é algo que sempre exige o tempo futuro, a abertura porvir, tem sido indispensável para a manutenção do sonho. Se o “mais terrível e belo dos mundos, o livro” permanece como intenção de meu amanhã, aceito o bom combate. Que o futuro venha.

5º Lugar: A Viagem (Virginia Woolf)
Experiência ainda bem recente, o primeiro romance de Woolf foi dos mais intensos mergulhos que a escritora já me proporcionou (desses com água bem gelada, que machucam ao te lembrar da vida). Inventário de solidões, é livro que não conhece o fim, exatamente por lembrar que apesar dos acontecimentos que nos pesem, o mundo prossegue, o tempo não cessa. E isso dói. A ressaltar também a presença da amiga Rosângela Neres, maior woolfiana que conheço, responsável por esta minha leitura e presente em absolutamente cada página entre aquelas duas capas. Livros não trazem apenas palavras.

Menção Honrosa: A Música Desperta o Tempo (Daniel Barenboim)
Leitura implicada pela minha nova realidade musical de 2011 (como seminarista no curso de Música Sacra), esta aproximação ao maestro Barenboim foi coisa do acaso (?), decidida simplesmente pela beleza do título. Sua perspectiva refinada, ao aproximar a música de uma compreensão política do mundo, encontrou boa identificação na minha própria maneira de abraçar as artes; como ele conclui: “O pensamento lógico e as emoções intuitivas devem estar constantemente unidos. A música no ensina, em resumo, que tudo está ligado.” Que o bom diálogo permaneça.

TOP FILMES (NO CINEMA) 2011

Último dia do ano é sempre dia de atualizar meus Tops por aqui. E como eu sempre começo e termino tudo cinematograficamente em minha vida, vou dar a largada com os melhores filmes tocados dentro do cinema no correr deste ano, que foi atípico no bom número de experiências provadas em salas escuras e milagroso por me fazer viver algumas das mais importantes sessões que para sempre guardarei.

1º Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, França/Itália/Bélgica, 2010)

Este abismo que existe dentro da lágrima.
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2º Chantal Akerman, De Cá (Gustavo Beck & Leonardo Ferreira, Brasil, 2010)

Minha vida, antes e depois.
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3º Pânico 4 (Wes Craven, EUA, 2011)

Cinefilia é coisa de sangue.
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4º Meia-Noite em Paris (Woody Allen, EUA/Espanha, 2011)

A eterna saudade do tempo.
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5º O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, Portugal, 2010)

Porque a imagem da alma não morre.
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6º Cisne Negro (Darren Aronofsky, EUA, 2010)

E não se nega a pele.
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7º Um Sonho de Amor (Luca Guadagnino, Itália, 2009)

No drama de amar, o esculpir da dor.
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8º Minha Terra África (Claire Denis, França/Camarões, 2009)

A sinceridade da vida atravessa os ventos.
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9º Um Lugar Qualquer (Sofia Coppola, EUA, 2010)

E o deserto ainda me espera.
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10º Reencontrando a Felicidade (John Cameron Mitchell, EUA, 2010)

Porque é da imagem o luto.
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11º Pacific (Marcelo Pedroso, Brasil, 2009)

Do encantamento pelo dispositivo.
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12º Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, 2010)

Sobreviver não significa nada.
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Menção Honrosa: Retrospectiva Stanley Kubrick (IV Janela de Cinema)

Porque somente dentro de uma sala escura é possível vencer a morte.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CENAS SOBRE NICK

Na recente atualização feita sobre Nicholas Ray pelo site Multiplot!, tive a oportunidade de participar comentando as duas cenas que me são mais importantes dentro da carreira do cineasta. CONFIRAM NO SITE a listagem completa com 10 cenas sobre Nick. A seguir, minha colaboração:

Paixão de Bravo (1952)



Não seria por acaso que, em 1980, ao filmar seu Nick’s Movie, Wim Wenders escolheria justamente The Lusty Men como sessão a contar com a ilustre presença do já idoso cineasta Ray; ou coincidência que, especificamente, a cena clássica inserida dentro de seu novo filme (de Wenders) fosse esta: a do retorno de Robert Mitchum à casa de sua infância. O personagem de Mitchum, Jeff McCloud, protótipo mítico de todo um imaginário americano (masculino, mas também acima dos gêneros), vive nesta cena uma das mais belas reflexões sobre o tempo que o cinema já realizou. Do retorno ao lar, ou mais claramente, do desejo de um lar que os personagens do universo de Ray carregam — pois é pulsão que atravessa toda sua filmografia, de They Live By Night a The Savage Innocents, para não falar do próprio título We Can’t Go Home Again —, revela-se um desejo de posse impossível, de impotência da imagem em tornar matéria o que se perdeu no tempo, o que não se concretiza além do que uma emoção traz de abstrato. Na corrente que impede a abertura da cerca e no gesto de Mitchum ao saltá-la, a despeito dos novos donos que possam habitar a casa, Nicholas Ray fundamenta um cinema que reconhece o peso e aprisionamento do tempo para o movimento presente. Daí que na retomada da cena em Wenders, vemos um retorno do cinema ao próprio cinema, um encontro de memórias que já não significam enquanto autônomas, mas que juntas constroem novo paradigma de sobrevivência — pois esta é a luta de Mitchum em The Lusty Men e de Ray em Lightning Over Water, sobreviver ao tempo com a dignidade mínima de um homem. Voltar pra casa não é coisa que se decide pelo hábito, é força que situa a presença do mundo, a imagem do mundo e o ponto de vista que formamos. Voltemos ao cinema então. Ao lar.

Johnny Guitar (1954)



Quando nos deparamos com Joan Crawford ao piano, tocando tranquilamente enquanto um grupo de oponentes se aproxima para enforcá-la, reafirma-se a convicção de que Johnny Guitar é um genuíno exemplar de cinema surrealista. Para Nicholas Ray, parece não ter sido suficiente um contexto que, em si, já rompia todas as margens da verossimilhança — o saloon, cenário principal do filme, fica situado no meio do nada, do mais absoluto deserto e de suas ventanias implacáveis; os cowboys, como diria Truffaut, desmaiam e morrem como bailarinas, além de ‘perderem tempo’ lendo livros —, por isso ele fez questão de orquestrar cada cena de seu filme, pelos diálogos ou olhares trocados, como se colasse imagens e emoções impossíveis de se relacionar. Nada parece estar em seu lugar, ao mesmo tempo em que tudo se evidencia sob um extremo rigor lógico, intocável. O vestido branco de Crawford, que terminará em chamas após sua vertiginosa fuga ao lado de Johnny Guitar (Sterling Hayden), será apontado pelo amante enquanto elemento de perigo, por atrair os inimigos como uma lanterna; é exatamente esta a concepção da ameaça no cinema de Ray, realizador que imprime o medo nas cores de uma roupa, objeto ou cenário, que faz a matéria pulsar quase lacrimejante, melodramática. Da cena ao piano, Johnny Guitar faz-se vanguarda, arcabouço de gêneros, afronta. É a partir dela que não somente o filme em questão, mas toda a carreira de seu diretor confirmará o abandono das expectativas frágeis, do que narrativamente pode ser previsto, assumindo o caráter onírico enquanto único domínio possível de prosseguimento. “Todo homem tem o direito de ser menino”, é o que Crawford diz na pele de sua personagem Vienna, e com certeza, o cinema de Nicky, o menino que sonha, exerceu desse direito até as últimas consequências.