sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O INACABAR DO SER


Um Dia no Campo, Jean Renoir, 1936.

É como se pelo espaço da janela eu pudesse estender as mãos em paz, rendido a quem nunca apreciei com o prazer devido. Justiça seja feita, poucas vezes o cinema terá atingido tamanho regozijo de vida, este frescor do suspiro, do deixar-se levar pelo vento. E é muito mais do que um cinema-janela, pois aqui não ocupa a fenda um reducionismo simbólico, mas uma espécie de simples constatação de que há coisas que se ofertam aos olhos sem negar o toque, sem esconder outras necessidades de pele.

Neste filme inacabado de Renoir talvez o mais completo mundo realmente encontrado pelo diretor. Porque nem tudo pede um fim, ou melhor, pois o fim sempre chega, nem todos os fins precisam de determinados meios. Um beijo, um arbusto dobrado; fecham-se os olhos para que se abra o amor... E assim nasce o cinema.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PORQUE NÃO QUERO VER, EU OLHO










Terror na Ópera, Dario Argento, 1987.

Porque quanto mais filmes vejo, mais filmes preciso ver. Num sentido geral, mas também nesta aproximação finalmente concretizada ao Argento, que filme após filme vem me desvelando uma variedade de noções próprias da estética, do belo, desta necessidade de não fechar os olhos e os sentidos ao que se oferta como em sacrifício. Escorre o sangue. Findam-se vidas. E cada um de seus crimes desorienta respectivamente cada uma de minhas convicções para com o visível. Como nesta tortura contra a protagonista, que na verdade goza de dor.

Num misto demoníaco do que Buñuel e Kubrick outrora realizaram, o italiano recria toda a condição da violência que é tornar-se espectador. E já não se pode ignorar o crime. Olhos que perpetuamente se abrem para não morrer e com isso testemunham o encerramento da vida. Dialética de uma pulsão. Do ser voyeur. Desta impossibilidade da fuga diante de um filme. Não querer ver é o que me insiste em olhar.