domingo, 29 de abril de 2012

MEU PAI E OUTROS CONTOS

Na última sexta-feira, o amigo-poeta Inaldo Tenório teve a felicidade de lançar seu novo projeto literário, uma primeira incursão na prosa, com o livro Meu Pai e Outros Contos, pela LP-Books. Convidado para abrir a publicação com algumas palavras de prefácio, compartilho aqui a minha gratidão pela honra de participar em momento tão importante na carreira de Inaldo e aproveito para divulgar e recomendar o seu trabalho, que pode ser adquirido diretamente com o autor, através do e-mail: inatemoc@gmail.com

Registro abaixo minha colaboração no livro, com o intuito de despertar, nos que por aqui passam, alguma boa curiosidade pelo que o livro guarda.

                                                                     
Já se disse que a morte é o obstáculo. E contra ela se levantam as vozes, os gestos, movimentos que confrontam a passividade do estar no mundo. Derradeira, vem da morte o grito, esta força que faz do verbo a terra, e que nele encontra o fértil caminho da expressão. Coisa que não cala. Contradição. Há na palavra um silêncio, ecoado aqui por Inaldo Tenório, sobrevivente, homem que grita no pulso, no branco espaço das linhas que ainda não foram, e esperam, ao passar do tempo, do morrer.
Nesta reunião de contos, primeira de um autor que faz da prosa seu desafio, um concentrar de expectativas aliançadas, regidas por tema dos mais humanos, contempladas em tênues linhas de narrativa que não se contentam com o luto. Inaldo sabe com o que não se deve brincar. E por isso a morte não lhe vem como em tempo futuro, como em medo, mas gloriosa ressurge como coisa que passou e venceu, que de certa forma ficou, pedindo agora lugar para fazer valer a dor. Se os contos de Inaldo oferecem esta morada, entre personagens, situações e reflexos que jamais abandonam o estranhamento do fim, é porque no tempo de sua escrita reafirma-se um laço natural do texto imaginativo. Esta convicção do esboço. São suas palavras que atestam: “Todos estão apresentando um eterno ensaio.” (do conto Ensaio)
É de conto em conto, de tentativa em tentativa, que este livro toma forma. Da teia de repetições que resulta – pois se repetem os dias no cotidiano da vida, se repetem os traços no labor da linguagem –, um livro que nos convida a também resistir ao que de temeroso ocupa um texto, ao que ameaça. Não se contradiz Inaldo ao abandonar o verso, ele que vem construindo uma carreira de poesia; e não o faz porque em nenhum momento abandona o poético. Mas há algo de contraditório aqui. Incongruência que valoriza. Da assertiva rilkeana de que “é sempre apenas numa contradição que se pode viver”, Inaldo se alimenta desta incompatibilidade inerente à criação literária. Daí, as duas perguntas que intercalam o conto Chapéu de Massa importarem tanto para o entendimento de seu atual projeto: a primeira “Como a beleza poderá entristecer alguém?”, a segunda “O que queria ele falar com Deus?”.
Perguntas-chave para o livro Meu Pai e Os Outros. Fundamentos de um olhar. Cada um dos vinte e dois contos aqui compilados compartilha em algum momento de tais anseios, e se Inaldo não alivia para o leitor esta espécie de angústia que o atravessa é porque sabe não ser tarefa sua encerrar sombra de resposta. À semelhança do protagonista de A Dieta, este é livro cercado de relógios por todos os lados, em qualquer direção, sempre o espreitar das horas. E por isso a insurreição do autor, o abraçar de Inaldo por uma prosa que tenta não enganar, mas que ilude, como toda literatura termina por fazer.
Estão na primeira linha do primeiro conto estes vestígios de vida. Meu Pai, lamento que traz os outros, como num cortejo. Reverência. Paternidade reconhecida em nomes (da literatura, mas também política, filosofia, religião), ações corriqueiras ou definitivas, representações de humanidades que permanecem à beira da vida. E como nas águas que se movimentam no leito deste conto-título – imagem retomada em diversos outros dos textos –, que passam e não voltam, o ciclo contínuo de todo o livro reconfigura a experiência global de seu escritor. Desta morte Inaldo sai não apenas como um sobrevivente, mas como alguém que ousou tocar o outro lado da vida e não temeu traduzir o toque em verbo.
De minha gratidão por introduzir os contos que seguem, deixo a palavra amiga, também leitora, de saber este livro responsável por um novo tempo. Seu tempo, Inaldo. Tempo nosso. Dos que lemos com você e na insistência do ler, sobrevivemos.