Ontem eu vivi um dos episódios mais tristes de minha vida cinéfila. Desses que conseguem me deixar afastado de uma sala de cinema por semanas, até meses. Curiosamente em dias que eu estava me perguntando do porquê de eu ser um cinéfilo sem tanto carinho pela sala cinematográfica em si. Das muitas justificativas duas sobressaem:
1. A qualidade dos filmes: quase 100% dos filmes que foram definitivos em minha vida foram vistos fora das salas de cinema; se alguns deles eu pude ver na tela grande, não foi em âmbito comercial, mas na Universidade ou em Cineclubes;
2. O desrespeito do público: eu até tento não ser tão avesso à coletividade, mas... Conversas no celular, gargalhadas dentro ou fora de hora, marmanjos que estendem os pés (descalços e fedidos) nas poltronas da frente, sem se importar se tem alguém ao lado desta [sofri com isso na última semana], são alguns dos fatores que me fazem preferir sessões individuais;
E como eu disse no início, ontem pude somar mais uma razão para ficar longe dos cinemas:
3. O desrespeito dos próprios administradores das salas!
Foi numa sessão do filme Atividade Paranormal, no cinema do Shopping Tacaruna (Recife), gerenciado pelo Grupo Severiano Ribeiro, um dos maiores exibidores comerciais em atividade no país. Faço questão de registrar minha indignação com a maneira como o público é tratado nas salas destes cinemas (a reclamação se estende aos outros cinemas do complexo, pelo menos aqui de Recife). Pode parecer insignificante, mas não é:
1 MINUTO ANTES DE TERMINAR O FILME, UM FUNCIONÁRIO ENTRA NA SALA E ABRE AS PORTAS DE SAÍDA, QUE SE LOCALIZAM NA FRENTE DA SALA, AO LADO DA TELA.
Eu compreendo que o objetivo de um cinema seja o lucro, não estou pedindo caridade, mas se eu pago por uma sessão de um filme que dura 99 minutos, acredito que eu tenha o direito de permanecer na sala por 99 minutos sem ser incomodado pelos funcionários. Nunca aprovei essa atitude administrativa por parte dos cinemas, mas ontem, pela primeira vez pude perceber o quanto ela pode ser nociva para a apreensão de um filme. Estávamos na última cena, quando finalmente o público adolescente se aquietava entretido no suspense, e o funcionário entrou, abrindo a porta e inundando de luz um cinema escuro, incentivando a garotada para explodir em baderna exatamente no clímax do filme...
Acho que nunca eu tinha me sentido tão expulso de um lugar, como se dissessem saia logo daqui! Saí do cinema profundamente magoado, ofendido e triste, como se eu tivesse mendigado pra ver um filme. Arrependido por não ter simplesmente baixado o Rip do mesmo e visto no meu quarto (onde com certeza eu teria me assustado), fico me perguntando o que é que me incentiva a voltar a um cinema, pagar caro, sabendo que não poderei assistir a um filme sem contratempos...
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
TIC-TAC + DREYER = CINEMA + VIDA

Você Deve Respeitar Sua Mulher, Carl Th. Dreyer, 1925.
Novo post no MAKING OFF.
Para mim é muito curioso, tendo provado as Páginas do Livro de Satã (1921) há pouco tempo, perceber que o último elemento disposto naquele filme é um centro motor de todo o presente Você Deve Respeitar sua Mulher. O pêndulo do relógio, em formato de coração, era o objeto que encerrava a epopéia de Satanás naquele outro ambicioso filme de Dreyer; aqui, ao contrário, ele ganha corpo em toda a duração fílmica, onipresente em um cenário restrito, com seu tic-tac devidamente narrativo, ao fundo do quadro em permanente constância. Acho inquietante, pois há um espaço considerável entre a realização desses filmes, preenchido pela existência de outras obras que não funcionam sistematicamente como um gancho entre eles. Mas é notável como ele se quis revelar pela referência, marcando a última imagem de ambos com um mesmo sinal, um mesmo lembrete do tempo que passa e não retorna, que se vai e arrasta consigo uma variedade de sentimentos invariavelmente envolvidos pela poética linguagem do coração.
O maior diferencial entre aquele filme e este, encontra na relação do tempo pelo pêndulo uma contigüidade espacial que delimita e define a capacidade de Dreyer em se experimentar num enorme leque de registros disponíveis para se trabalhar em cinema. Se no Livro de Satã, a narrativa envolve um tempo e um espaço universais, baseados no desenrolar da história humana, em Você Deve Respeitar tudo se limita ao espaço de um lar, ao tempo de uma crise, fundamentados por uma tragédia íntima que nunca deixa de partilhar interesse pelo universal, não mais pautado na história, mas no sentimento capaz de unir mais do que povos e gerações, o sentimento capaz de unir um simples homem a uma simples mulher: o amor. É bem verdade que muitos poderão apontar essa delimitação interior rígida como ancorada preguiçosamente nas possibilidades teatrais disponíveis (deliciosas), mas ninguém poderá acusar Dreyer de ‘filmar teatro’, pois pela rigidez provamos outra maneira de flexibilizar a imagem, de dilatar o registro da câmera em sensações fortes, que incomodam nossos sentidos e nos impelem a uma cruel identificação com a banalidade filmada. E é aqui que me lembro de um termo que pesou em minha breve reflexão do Livro de Satã, pois fundamental a todo cinema do mestre dinamarquês: o interesse pelo pormenor. A grandiloqüência das situações vividas naquele filme, já apreendidas por um viés subjetivo distinto da narrativa cinematográfica convencional, ganha aqui outras dimensões, ainda mais internas e particulares, condicionadas à vivência diária de qualquer indivíduo. É pela força do pormenor que Dreyer usará aqui seus elegantes e sutis movimentos de travelling para filmar a simplicidade de uma mulher preparando o desjejum de seu marido, ou outra esticando uma corda para varal de roupas; pelo mesmo pormenor veremos em plongée, pelos olhos da mulher, o marido redimido a lavar a louça... E emudecemos pela maioridade do pormenor.
Cada escolha de filmagem nesse ‘pequeno enorme lar’ torna-se uma revelação; uma luz não apenas sobre os personagens, naturalmente desenvolvidos com brilhantismo, mas sobre nós, espectadores, e em nossas emoções revolvidas pela continuidade da cotidiana trama. É muito fácil se encontrar dentro daquelas paredes, pois o que Dreyer faz com maestria é nos colocar dentro de suas imagens, dentro de seu tempo único, com movimentos únicos, movidos por um único e particular tic-tac existente somente no cinema de Dreyer. E se o tic-tac atesta uma espécie de assinatura autoral (lembremos seu assombroso ruído em A Palavra, 1955) é para que não nos esqueçamos do poder que o cinema tem de fazer o tempo durar numa dimensão paralela ao filme, muito mais próxima de nós do que o mundo circundante; dimensão que pulsa um novo batimento não apenas na imagem, mas origina um novo fundamento em nosso próprio pulsar, em nosso sentir, para sempre impregnado em nossa insistência por viver.
UM CAMINHO PAVIMENTADO POR ESPERANÇAS MORTAS

Páginas do Livro de Satã, Carl Th. Dreyer, 1921.
Novo post no MAKING OFF.
É praticamente impossível deparar-se com um título forte como Páginas do Livro de Satã e não imaginar estar diante de um exemplar do mais pleno horror. Quando Dreyer intitulou sua ambiciosa obra com o nome de Satanás, sabia estar preparando o espírito do público em direção a inquietações das mais complexas, enraizadas em toda base da cultura ocidental como num alicerce de concreto inquebrável. Apesar de o cinema atual já ter conquistado a capacidade de representar episódios da Paixão de Cristo como numa verdadeira fábula de horror, não há como ignorar, mesmo com os olhos do século XXI, que a empreitada de Dreyer foi muito mais ousada, visionária e provocadora. Isso, porque ao invés de incentivar o caráter maligno de Satanás – pois o de Cristo não deixou de ser santificado – Dreyer virou o imaginário cristão do avesso, oferecendo ao Anjo Caído a possibilidade de uma Paixão, e o mais impressionante, sem desafiar a própria religião com entonações hereges gratuitas e de fácil polêmica.
Se o cineasta optou por sublimar o horror de seu protagonista (Satã) em narrativas que exacerbam o drama às últimas conseqüências, em nenhum momento podemos deixar de sentir o que seria o equilíbrio perfeito entre o horror e o drama, o medo e a lágrima. É inútil tentar descrever em palavras a potência emocional que cada imagem do Livro de Satã é capaz de evocar no espírito do espectador. Todos os quatro atos do filme são desenvolvidos numa plenitude de sensações que nos alterna o ânimo entre a piedade e o temor (sim, há um brilho aristotélico no olhar de Satanás), entre a paz e o desespero, a esperança e a desilusão. E quanto mais nos espantamos com as investidas de Satanás para tentar os homens, mais simpatizamos com o temível algoz, num contra-senso que intensifica a angústia e perturba nossa consciência impune.
A evidente aproximação de Dreyer com o colosso Griffithiano (Intolerância, 1916) pode até ser enxergada por alguns como uma resposta à América. Mas não partilho de tal opinião. Mesmo porque Griffith não pede respostas. O que Dreyer me parece fazer com seu épico, atravessando a história humana do ano zero (cristão) até o século XX, é um contraponto harmônico na construção de uma nova história, história de uma nova arte: uma viga a mais no alicerce do próprio cinema. Em nenhum momento Dreyer parece querer se opor à opulência de Intolerância – ainda que seja evidente o contraste –, pois ele também se vale de muitos cenários, figurantes, figurinos e todo um arsenal básico de informações visuais que contextualizem cada época encenada. A diferença de Dreyer se dá no pormenor. Na mobilidade dos corpos, na aproximação dos rostos (sim, os célebres closes do mestre passam aqui por uma primeira experimentação), nos raios de sol que atravessam a tela e lhe imprimem um calor de Verdade, que queima, e intensifica a dor. Não é possível apagar da memória o raio de sol que invade o quarto da moça deflorada, ao fim do segundo ato, talvez o mesmo que logo no início do terceiro, atravessa a guilhotina que executará Maria Antonieta. Pois é como se a aurora trouxesse consigo o horror. Na luz, o habitar do mal.
O último letreiro do filme afirma que a condenação e o juízo divino contra Satanás foram escritos com letras da eternidade. Nesse sentido, por hoje sabermos que Dreyer ocupa um lugar santificado na sétima arte, não é arbitrário constatarmos que cada uma de suas narrativas foi filmada com imagens eternas. Pois se há um nome condenado ao eterno, este nome é: DREYER.
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