Jean Renoir, ao refletir o cinema como uma arte secreta, em contraponto à impressão industrial de coletividade, afirmou que um filme é feito apenas para três pessoas.
Eu adoraria encontrar as outras duas...
Hoje completo exato 1 ano com a coisa. Com essa nova maneira de ver não apenas o cinema, mas a vida. É impressionante que em mais de 10 anos, desde o encontro com Hitchc (13/08/1999), nunca tinha precisado marcar outra data que definisse meu envolvimento com o cinema. Mas como toda boa história de amor, as datas surgem... Espero poder viver para outras.
O fluir de um tempo que condensa o mover da relva.
Quando os dois amigos se reencontram após 20 anos e decidem adentrar pelas florestas até chegar a uma fonte térmica natural eles dão o lugar de personagem ao mundo. É quando o olhar cinemático se torna verde. Quando o tempo filmado torna-se o tempo vegetativo, o tempo das folhas.
Old Joy (Kelly Reichardt, 2006) insere-se num grupo de filmes muito particulares dessa década, inquestionavelmente devedores deste meu querido olhar gerryzante do mundo, aliados a este ultrapassar do tempo possibilitado pelo contato homem/natureza, pelo fundir do corpo-homem ao corpo-mundo, onde o fôlego de vida torna a ser uno, como de volta ao ser divino.
A melodia continua para sempre. Enquanto o coração bater e os pulmões respirarem, você pode cantá-la para sempre. Por isso os cadernos são cheios dessas melodias. Elas não significam nada. Não são feitas para serem apresentadas. Nem para serem aplaudidas. O autor não deve se curvar durante o aplauso. Não há necessidade disso. Isso é apenas a respiração natural. Uma coisa íntima. Mas não totalmente. É como a comunicação entre dois amigos. Arvo Pärt
Tudo começou há um ano atrás, junto com Gerry...
Tudo se completou há algumas semanas, quando o amigo Renan, teve o cuidado de atentar para os créditos do filme e descobrir que Arvo Pärt estava lá... Mandar-me apenas a música para eu ouvir... E pela audição, pura e simplesmente, tocar novamente na coisa...
Ontem, fui abençoado pelo documentário 24 Prelúdios Para Uma Fuga (Dorian Supin, 2002), que em menos de 90 minutos impregnou minha alma com o conhecimento e a sensibilidade de um compositor que entra definitivamente no meu panteão musical particular, chegando mesmo a dar as mãos à Beethoven, com toda a humildade.
Estoniano (nascido em 1935, na Letônia), Arvo Pärt desenvolveu uma obra sem paralelos, inserida no gênero do ‘minimalismo religioso’, com melodias que se baseiam em repetições hipnóticas, no que ele chama de tintinnabuli (do latim, pequenos sinos).
Ao vermos o documentário, constatamos que a palavra realmente não é o forte de um homem que pensa musicalmente. É maravilhoso vê-lo corrigir o ensaio de uma orquestra dizendo: Esta nota deve ter algo como música, não sei o que é, mas precisa ter. Repetidamente ele afirma não saber o que quer dizer com sua música, mas que há uma idéia perfeita que ele busca alcançar, profundamente vinculada à presença de Deus. De suas limitadas e sinceras palavras, talvez as mais inspiradas sejam aquelas que comparam a nota musical à folha de uma árvore, quando ele ressalta o valor de uma folha, que para a natureza é tão importante como a flor.
Em outro momento, quando revela desejar a pausa que dure toda vida, a nota que a alma cante para sempre, me fica muito claro que a obra de Arvo Pärt almeja o domínio da eternidade.
Se a eternidade tiver som, será como o de Arvo Pärt.
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Não poderia deixar de oferecer a todos que por aqui passam os olhos, um brinde aos ouvidos, e mais, à alma. O vídeo abaixo, com a música Spiegel Im Spiegel (1976), é a cena de abertura de Gerry (Gus Van Sant, 2002), onde podemos ouvi-la como trilha.