sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ENIGMAS

E não é possível falar de Antonioni e Pintura sem lembrar De Chirico, uma das maiores recorrências visuais de todo universo metafísico do cinema que amo. E eu me perco aqui, entre estes dois seres esmagados, reduzidos à sombra que são, ao disforme de sua presença, numa cidade que é deserto, num lugar em que só há espaço para mais de meu vazio.


O Enigma de uma Chegada, 1912.

“Mais que seres vivos, isso que entendemos como seres vivos, homens ou cavalos, [os personagens de Chirico] parecem objetos inanimados, mais mortos que os mortos, mas que retomam de forma estranha e da maneira mais surpreendente algumas prerrogativas da vida.”
Georges Ribemont-Dessaignes

“Por certo, não é a vida humana que se afirma nas telas de Chirico, mas a vida das coisas.”
Eliane Robert Moraes



A Nostalgia do Infinito, 1914.

“É essencial que o pensamento se separe de tudo que nós chamamos de lógica ou significado, que se coloque em tal distância dos grilhões da humanidade, que as coisas apareçam sob uma nova luz, como se iluminadas por uma constelação ofuscante.”
Giorgio de Chirico



O Enigma de um Dia, 1914.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ANTONIONI, PINTOR

O lado mais curioso da minha experiência pictórica é que, quando pinto, não me sinto como um pintor.

Quando começo a executar estas pequenas pinturas, elas parecem-me imediatamente insuficientes. É por essa razão que pensei também em fotografá-las e depois ampliá-las: até certo ponto, pensei que era inconcebível que fossem obras minhas.



Retrato, Michelangelo Antonioni.

Eu só pintei enquanto criança, mesmo que nessa altura eu só preferisse pintar caras, a da minha mãe e a do meu pai ou a de Greta Garbo. Mas nunca pintei a minha, uma vez que não me posso ver.

Há alguns anos pintei outras caras, as de desconhecidos e de amigos imaginários. Cortei uma dessas pinturas em pequenos pedaços e depois recontruí-a. o resultado foi uma montanha e foi assim que comecei. A partir daí, deixei-me levar pelo entusiasmo. Experimentei tal sensação de liberdade e um sentimento de alívio de já não ter que lutar com problemas ou idéias que quando comecei a pintar senti que nunca mais deixaria de o fazer.



As Montanhas Encantadas, Michelangelo Antonioni.

A alegria de trabalhar, a alegria da tranqüilidade ou do equilíbrio, como Gide definiu.

O processo das “Montanhas Encantadas” consiste totalmente na ampliação. É ampliação que revela em pormenor o material invisível da pintura original. É um processo semelhante ao que surge em “Blow Up”. Além disso, foi uma experiência muito interessante para mim enquanto realizador, mesmo que nunca me tenha ocorrido que tomei parte do mundo da arte, porque não sabia dizer a que forma de arte eu poderia atribuir estes objetos.

Se é verdade que por escrevinhar em pedaços de papel eu escapei do cinema, também é verdade que de alguma forma me aproximei dele através da ampliação fotográfica.



As Montanhas Encantadas, Michelangelo Antonioni.

______________________________________________________

Imagens digitalizadas a partir do livro Michelangelo Antonioni: A Investigação, organizado por Seymour Chatman & Paul Duncan (Taschen, 2004).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

UMA LUZ NO INÍCIO DO TÚNEL


Gradiente Luminoso, Jan Krüger, 2009.

É muito fácil enxergar na última década um interesse do cinema no sentido de uma reintegração do homem com a natureza. Dentro do significativo número de produções que colocou em cena o rompimento do humano com o mundo encontramos um nicho específico de filmes que tem como tema comum a errância de dois indivíduos masculinos numa relação entre si e com o espaço. Do meu querido divisor de águas, Gerry (Gus Van Sant, 2002), a filmes mais conhecidos, Mal dos Trópicos (Apichatpong Weerasethakul, 2004), Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005), ou menos conhecidos, Old Joy (Kelly Reichardt, 2006), vêm à memória diversos títulos que ajudam a entender o cinema deste início de século, em sua perspectiva conciliadora, restauradora de uma comunhão perdida, numa espécie de avesso do que os primeiros cinemas constataram em sua forma de registrar o mundo.

Em continuidade a este projeto do olhar e do narrar, deparo-me com Gradiente Luminoso (Rückenwind), filme que dá mais um passo na interação dos filmes citados, finalmente sem o temor de abordar a sexualidade dos protagonistas como algo que, naturalmente, também não é temido por eles. À medida que o desinibir dos corpos se dá, na nudez e na intimidade deles, fico me perguntando se realmente já é possível verter esse tipo de tratamento ao que filmes como Gerry iniciaram na investigação cinematográfica contemporânea. O que, para muitos, poderia representar uma quebra de paradigmas, uma derrubada de tabus, prefiro encarar como um novo problema a ser discutido, pois se os jovens filmados pelo alemão Krüger já não experimentam da ambigüidade em seu relacionamento, o mesmo não pode ser dito das imagens em si que materializam o filme. Tantos disseram que naqueles filmes (Gerry, Mal dos Trópicos, Brokeback Mountain, Old Joy) o sexo era a chave de resposta, a espécie de luz no fim do túnel; assistindo Gradiente Luminoso percebo que ainda não conseguimos nem entrar em túnel algum.