domingo, 10 de outubro de 2010

AVENIDA BRASÍLIA FORMOSA

Crítica originalmente publicada na Revista Eita!, Fundação de Cultura do Recife, Agosto de 2010.

Filme com sessão Avant Première no 14º Encontro SOCINE, Cinema da Fundação.




O LUGAR DA ARQUITETURA


A imagem que abre Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, Brasil, 2010) é bastante simples: num plano fixo, ao som de um hit brega, contempla-se o exterior de algumas residências da comunidade Brasília Teimosa; as construções aglomeradas não passaram pelo acabamento adequado de um reboco ou pintura; o que vemos são tijolos, um pequeno contorno do céu, a ponta de uma frágil árvore e um poste com suas fiações emaranhadas por uma rabiola perdida. Talvez nenhuma outra imagem, em todo o filme, apesar de existirem outras cenas equivalentes, traduza tão plenamente o que o jovem cineasta Gabriel Mascaro faz em sua nova experiência com o cinema. Aliás, ‘experiência’ é um termo finalmente bem-vindo ao cinema de Mascaro, que já demonstrara ser capaz de acrescer fôlego ao renovado cinema que Recife vem construindo.

Com esta imagem somos de imediato apresentados não só ao universo de Brasília Teimosa, mas ao interesse que Mascaro enfatiza pela arquitetura de um lugar. Se em seu filme anterior, Um Lugar ao Sol (Brasil, 2009), as colossais construções dos arranha-céus constituíam o núcleo de abordagem, agora o que temos é um avesso, muito mais do que social, um avesso do espaço, das condições físicas que levam um lugar ao enfrentamento da transformação. É curioso como o sentido da arquitetura coaduna-se ao projeto de Mascaro, seja na individualidade de seus filmes, como na progressão deles. O paralelo que propomos é justamente o do arquitetônico enquanto meio significante do cinema aqui realizado.

Em Um Lugar ao Sol, por exemplo, a exploração do registro documental não escapa às limitações do gênero; tudo está muito bem recortado, logicamente interligado, como se o engessamento da série de entrevistas surgisse em reflexo à perfeição das mega-construções (apesar de as cenas em que os prédios falam serem de impacto superior ao das entrevistas em si). Já em Avenida Brasília Formosa, em decorrência ao inacabamento de grande parte das moradias, encontramos um cinema de maior abertura estética, onde o sentido formal e narrativo subsiste em construção, sob o nosso olhar; o que não significa ausência de controle ou rigor. Assim como as edificações da comunidade também se revelam estruturas sólidas, habitáveis, o cinema de Avenida BF está completamente sedimentado numa consciência que se percebe desde a construção dos planos até a montagem final. A diferença é que agora não há o ornamento e todo o universo se estabelece numa lógica muito mais orgânica, permitindo que o olhar da câmera ecoe o olhar primeiro do mundo na relação nutrida entre o espaço natural e as intervenções urbanas.



O LUGAR DO FILME

É importante localizar a experiência de Mascaro dentro daquilo que pode ser chamado um cinema do olhar. Isso porque é corrente na produção nacional a existência de filmes que ignoram esta que seria uma condição primeira do cinema, sobrecarregando suas imagens com uma culturalização vulgar, amarrada por expectativas de regionalismo que em nada contribuem para uma representação sincera do mundo chamado Brasil. Mais do que mostrar o bairro de Brasília Teimosa poetizando a pobreza, o que sobressai em Avenida BF é o poetizar em si, com uma espécie de autonomia diante do contexto social, sem esquecê-lo, mas também sem torná-lo um apelativo centro de atenções. É um olhar coerente com boa parte do cinema atual (em alguns momentos fica a impressão que Van Sant ou Hsiao-Hsien chegaram no Recife), onde a prioridade da beleza decorre do estado do olhar, ao invés do objeto do olhar.

Não por acaso, Avenida BF ocupa um lugar de estréia na carreira de Mascaro, como seu primeiro longa de ficção; algo que assume discretamente, já que muito de sua técnica é herdeira da tradição documentária. O foco narrativo recai sobre um núcleo de personagens cuja vida mudou depois que as antigas palafitas da favela foram substituídas pela Avenida que intitula o filme. Cada um desses indivíduos, notavelmente encarnados por habitantes reais do lugar, encontra-se com os demais em situações do cotidiano, situações que à maneira da arquitetura, permanecem em transformação contínua, afetando através de suas identidades a subjetividade maior do mundo.

Além da importância que Avenida BF tem dentro da carreira de seu diretor, também já é possível falar deste filme, que sequer foi lançado no circuito de exibição nacional, como uma conquista para o cinema brasileiro (apenas uma versão curta do filme foi exibida na TV Brasil, em decorrência de sua premiação no edital nacional do DocTv, em 2009). No início de fevereiro deste ano, Avenida BF foi selecionado para a mostra oficial do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, com uma premiere integrada especificamente na mostra Bright Future, que de acordo com as premissas do evento visa ser “uma plataforma para cineastas do futuro, através do qual, o festival apresenta os trabalhos mais importantes, idiossincráticos e aventurosos dos novos cineastas do mundo.” Em abril, o filme também fez sua estréia latina no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires (BAFICI).



O LUGAR DO OLHAR

A oportunidade de acompanhar a carreira de Gabriel Mascaro, que ainda está apenas em seu terceiro filme, coincide com a temática, tão cara a ele, da transformação. Os personagens de Avenida BF atravessam, em graus diversos, um processo de mudança que condiz com o mundo onde habitam. Numa curiosa cena, são inseridos no filme trechos de uma filmagem feita em 2002, do episódio em que o recém-eleito presidente Lula visitava as palafitas para anunciar a transformação que faria naquele lugar. Além de permitir um contexto mais amplo, a cena chama atenção pelo estado das imagens exibidas, velhas, extraídas de um VHS atingido pela maresia. A transformação do lugar também é sentida na transformação das coisas, assim como em tudo que fundamenta uma representação do mundo.

Avenida BF, através do equilíbrio entre-gêneros, convida-nos a uma contemplação que não pode ser adiada. Há quem aponte tal estado do cinema contemporâneo (contemplativo) como um recurso irrefletido, injustificado ou difundido apenas como elemento de diferenciação aos produtos culturais das grandes bilheterias. Mas tal reducionismo não é encontrado no atual cinema de Mascaro. O olhar com que seu filme encara o mundo é a maneira que ele encontra para sensibilizar não só um público remoto, mas (re)sensibilizar o mundo primeiro. Se antes ele nos lembrara que a dureza do homem estava petrificando a natureza do espaço, agora nos indica que algo pode ser feito para desgastar a pedra. Como as águas desgastam os paredões que separam a Avenida Brasília Formosa do oceano, o olhar pode ser um meio de reintegrar o homem ao mundo. Só é preciso saber olhar.

Um comentário:

  1. Fico pensando se em Maceió não existem lugares como estes, para serem filmados como o são pelo Gabriel Mascaro, Nando. Um dia vou descobrir, embora ache q oq falta mesmo é o cineasta daqui...

    ResponderExcluir

Algo para mim?