terça-feira, 20 de julho de 2010

ESPECIAL DISSENSO - MOSTRA "OLHARES SOBRE O OLHAR"



Cineclube Dissenso realiza mostra Olhares sobre o olhar

O Cineclube Dissenso expande sua agenda habitual para realizar mostra especial durante quatro tardes de julho. Entre os dias 21 e 24, de quarta a sábado, o coletivo leva ao Cinema da Fundação programa especial intitulado Olhares sobre o olhar, com seleção que inclui um total de seis filmes, entre médias e longas-metragens. O que une as produções é o resgate de questões viscerais nos debates da história do cinema: afinal, qual a matéria prima da imagem? O quanto, na produção dos filmes, tange ao homem, e como? Quais as sensibilidades em jogo no exercício de olhar?

Esta breve coleção traz um panorama de filmes feitos sobre filmes, realizadores que versam sobre realizadores, ensaios feitos para o cinema, no cinema e sobre o cinema. Reunidos entre eles, vem o francês Eric Rohmer na tentativa de desmistificar o julgamento de que os filmes dos irmãos Lumière, precursores europeus da técnica cinematográfica, são “primitivos”, preconceito carregado por vários historiadores e largamente problematizado na produção dos últimos anos. Na mesma série, Chris Marker, um dos mais emblemáticos documentaristas contemporâneos, lança olhar cauteloso sobre os processos de produção de Andrei Tarkosvky, enquanto o próprio ensaia rascunhos de si mesmo junto ao italiano Tonino Guerra.

A mostra inclui ainda exercício ensaístico do português Pedro Costa sobre o trabalho de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, o que reúne três dos mais interessantes realizadores contemporâneos, cujos trabalhos parecem retomar premissas fundamentais do cinema, resgatando o que há de mais essencial no confronto sujeito versus câmera. Para completar, na costumeira tarde de sábado, o Dissenso realiza a última sessão da mostra, em regime surpresa. A proposta é proporcionar uma experiência diferente de ir ao cinema, em que o público só descobre o título a que vai assistir na hora da exibição.

Como sempre, as sessões são gratuitas. Na sequência, acontece debate aberto na Sala João Cardoso Ayres.

Informações para a imprensa: 8652-0144 (Fernando Mendonça, membro da curadoria)

SERVIÇO
Mostra Olhares sobre o olhar
De quarta (21) a sábado (24), às 14h
Cinema da Fundação
Entrada franca
Endereço: Rua Henrique Dias, 609, Derby
Informações: 3207-5000 (Fundação Joaquim Nabuco)

PROGRAMAÇÃO

21, quarta
Louis Lumière (Eric Rohmer, França, 1968)
Filme faz parte de um conjunto de obras realizadas por Eric Rohmer para a Televisão Escolar, nos anos 60. Para falar sobre os filmes dos Lumière e do começo do cinema, Rohmer convidou apenas duas pessoas: Jean Renoir, o maior cineasta francês na opinião de Rohmer e de tantos outros e Henri Langlois, o guardião da memória do cinema, inventor da cinefilia, no sentido mais nobre do termo. Nem um nem outro consideram o cinema dos Lumière "primitivo". 66 min.

22, quinta
Um dia na vida de Andrei Tarkovsky (Chris Marker, França, 2000)
Imagens emocionantes que vão desde a visita do filho de Tarkovsky ao pai já doente, e que já não o via há cinco anos por imposição do governo russo, até cenas das filmagens de O Sacrifício, assim como de seu enterro.
Tempo de viagem (Andrei Tarkovskiy e Tonino Guerra, Itália, 1983)
Documentário co-assinado por Tarkovsky e pelo seu argumentista Tonino Guerra, precisamente sobre a sua estadia na Itália para a filmagem de Nostalgia. Num tom de bloco-notas mais ou menos intimista, os dois homens falam da sua experiência conjunta, da poética transcendental daquele filme, da relação com as paisagens italianas e também de algumas referências que marcaram o imaginário de Tarkovsky na sua formação como espectador e autor. 117 min.

23, sexta
Onde jaz o teu sorriso? (Pedro Costa, Portugal/França 2001)
Filmando Jean-Marie Straub e Danièle Huillet durante a montagem de Sicília!, Pedro Costa consegue a proeza invulgar de expor o trabalho cinematográfico como um real confronto com uma matéria tecida de imagens e sons. Feito numa óbvia e tocante cumplicidade com o casal, este documentário (saudavelmente) atípico é também um caso emblemático de utilização do video digital. 104 min.

24, sábado
Sessão surpresa
Numa sessão onde o público só conhece o filme na hora, as câmeras interrogam qual o futuro do cinema, enquanto olhares e vozes do mundo inteiro se dividem entre inquietação, desamparo, fé, desmitificação, finitude, necessidade de filmar. Eis que tudo se concentra no humano. 133 min.

CINECLUBE

O Dissenso surgiu a partir da criação de um blog, parte do projeto de conclusão do curso de jornalismo de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de referências distintas. Foi então que surgiu um cineclube regular, ainda realizado no Centro de Artes e Comunicação, no campus da UFPE. A cada semana um dos integrantes passou a ficar responsável por levar um filme, tomando como premissa fundamental o caráter de raridade.

Em junho do ano passado, o cineclube mudou de endereço e passou a funcionar em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco. Este ano, o projeto foi aprovado no Edital do Audiovisual do Funcultura, promoção da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e passará a receber apoio do Governo do Estado.

De julho de 2008, quando surgiu, até hoje, já foram exibidos filmes de cineastas como Andrea Tonacci, Bela Tarr, Jan Svankmajer, Michael Haneke, Nicholas Roeg, Arnaldo Jabor, Hiroshi Teshigahara, Ana Carolina, Tsai Ming-Liang, David Cronenberg, Bruce la Bruce, Rainer W. Fassbinder, Sergei Parajanov, Raoul Ruiz, Russ Meyer, entre vários outros. As sessões regulares acontecem aos sábados, às 14 horas, no Cinema da Fundação. Após as exibições, são realizados debates abertos ao público.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

EDVARD MÜNCH


Edvard Münch, Peter Watkins, 1974.

Novo post no MAKING OFF.

Provavelmente o melhor tom pra um texto que deseje entrar na categoria "Crítica" é um enfoque neutro, mais distanciado e imparcial. Eu partilho dessa premissa e, vocês já sabem, sempre termino escrevendo de acordo com os conformes. Mas chega um momento que não dá, ou melhor, chega um filme que não permite a desobediência aos sentidos, ao afeto deixado, e que precisa, independente de regras, se fazer ouvir e sentir por outros, tantos quanto possível.

Já não me importam as conseqüências. Pois o que ficou em mim é maior que a letra, que a reflexão, maior que a tola concentração do querer fazer direito, se o que vale agora é subverter, romper o tempo e a lógica para encontrar algo muito mais puro, mais condizente com o estar vivo. Hahaha, como acho graça no que eu conhecia por biográfico, naquilo que o cinema me vendia e vende, rotulado, algemado, aprisionado sob o nome biografia. Vida? Ora, o que sabe o cinema da vida? Qual foi a capacidade que o século XX teve de tornar sua arte-estandarte uma dimensão do viver? É triste saber da resposta. Dói. Mas hoje a tristeza não é mais solitária e definitiva, pois encontro um representante errante do biográfico que não se atém ao registro, mas o cumpre com a liberdade de uma respiração, com a necessidade dela.

Assistindo Edvard Münch percebo que o cinema ainda está aprendendo a respirar. E ai daquele que pensa ter sido o aprendizado da fala ou da coordenação motora os maiores dos primeiros desafios de se estar vivo. Antes de tudo foi preciso respirar. Mas esqueceram de avisar isso ao cinema... E por anos, décadas, muitos o puxaram pela mão, tentando fazê-lo sair do lugar, quando a verdadeira necessidade era mantê-lo onde estava, dar um tapinha nas costas e liberar os pulmões inchados e sufocados pelas belas artes. Coisa que Peter Watkins fez. Sem precisar da arrogância de muitos que fingem ignorar as contribuições que as artes plásticas, o teatro e a literatura dão ao cinema, como se confrontá-los fosse sinônimo de vanguarda. Não. Watkins usa justamente essa matéria prima comum às artes para provar que uma imagem respira, para dar vida a ela, encontrando assim uma espécie de fôlego original, verdadeiramente criador, vivo.

E a cada minuto filmado, em cada detalhe que faz o século XIX reviver não como um artefato de vitrine, mas como uma realidade encarnada e palpável, a cada encontro do meu olhar com o dos não-atores flagrados em seus trajes de época, num constrangimento mútuo, sinto a minha respiração esvair. E o sufocamento me traz um prazer que assombra. A morte e a enfermidade, constantes que acompanharam Münch desde seus primeiros anos, alcançam-me, e não posso continuar assistindo o filme senão num luto feliz. Feliz porque compartilhado pela arte. E quanto mais inspiro, na inconsciência dos outros sistemas corpóreos que insistem em funcionar conjuntamente, mais o filme se comprova orgânico, sobrepondo os tempos, os planos, as realidades de um homem que não soube viver o presente sem o fardo do passado.

É como o tempo perdido que continua lá, não mais buscado, mas perene. Numa só cena o beijo, a morte, a dor, a inspiração, a técnica, a memória, a tela realizada! Pois em cinema não posso aceitar o tempo das horas, da sucessão! Aqui o tempo é enrolado, espiralado, e o é, o sido e o será são um! Numa só imagem, numa só cor. O expressionismo dos sentimentos do pintor, sua força entre a lembrança e o esquecimento, só ganham vida em Watkins, diante dessa destruição do tempo, de seu domínio pleno. E assim como Münch ousou ferir suas telas para atingir novas texturas e tonalidades, Watkins rompe toda a constituição tradicional da montagem, sangrando a imagem, granulando-a, eternizando nela um sentimento em estado total. Cada verso lido, cada discurso proferido, até mesmo a onipresença do arriscado narrador, causam o fluxo, a continuidade, a permanência de um nível que ultrapassa a mera representação pela defesa de uma revificação, não dos fatos ocorridos com Münch, mas das emoções descobertas, gozadas, temidas, mantidas por suas telas.

E eu gozo. Pois na dimensão real do biográfico a vida em jogo também é a minha. E hoje, com os olhos finalmente abertos, consciente de que não passo de um pântano, vejo que este filme já estava em mim antes que o tocasse.